Pål H. Christiansen

Sonhos de grandeza

(Drømmer om storhet, pp. 161-165, tradução: Carmen Trevisan)

Iria Augie me reconhecer novamente? Não seria impossÍvel. Havia algo em mim que impressionava as pessoas. Não era a primeira vez que isto acontecia, não. Com estes pequenos é diferente. Parece que nada é estranho para eles, que têm uma espécie de sabedoria que vem desde a idade da pedra, desde quando o homen andava por aÍ descalço, sem imaginar o que a história apresentaria de loucuras.

Abaixei-me e olhei mais de perto para o menino. Não, esta sabedoria era de um caráter mais recente, afirmei eu. Vindo do século XV, Renascimento, jogos de cartas e música de corneta. Ele parecia um sábio homem velho que tinha engordado depois de uma longa vida com bons serviçais. Relaxa, meu pequeno homem, pensei e mexi um pouco no brinquedo dele. Relaxa e dorme! E se tu estás pensando em te manter acordado, cala a boca e não começa aquela gritaria que atravessa a alma de um coitado.

Na mesma hora ele começou a gritar, fazendo-me pular de susto. Todos na loja se viraram e logo Waaktaar lá estava pegando o bebê do carrinho.

- Sabes se êles tem LÍbero 2-3 anos? Perguntei ao Waaktaar.
O bebê já tinha se acalmado e Waaktaar olhou-me e respondeu:
-Não sei. Só uso Pampers.
-Pampers? Disse eu.
-Sim. Disse Waaktaar.
-Pampers são as melhores, disse eu. Mas tenho um pequeno problema com minha filha mais moça. O xixi dela atravessa as fraldas Pampers.
- Que droga, disse Waaktaar.
- é uma bosta, disse eu.
- é sim, disse Waaktaar com compreensão.
- Up & Go funciona melhor, disse eu.
- Já não experimentaste apertar os elásticos das pernas? é bom fazer algumas tentativas, disse Waaktaar.
- Não adianta, disse sacudindo a cabeça desanimado.

Por um momento ficamos silenciosos. Comecei a procurer a carteira no bolso. Se eu conseguisse apresentar o livro teria que ser agora.

Nós tinhamos tido um momento de intimidade no meio do supermercado, um papai recém feito e um talvez futuro pai haviam se encontrado. O que seria mais natural do que apresentar meu livro a ele, ali e agora mesmo? Que o cara era uma pessoa que lia, não havia nenhuma dúvida. O livro não estava nem no bolso direito nem no esquerdo, ao contrário eu o havia colocado no bolso de trás, mas quando eu deveria alcançá-lo a Waaktaar, ele já tinha ido embora. Eu o vi saindo da loja e lá fora Lauren o esperava. Era óbvio que eles estavam ocupados, pois logo começaram a falar como os casais velhos o fazem, como se não tivessem se visto a mais de 3 minutos, e sairam rápido com se fossem embarcar no próximo avião para Nova Yorque.

Senti um tipo de ciúme de Lauren. Pål correu para fora da loja logo que a viu. Se era assim, para me sobrepujar a Lauren, teria que ter algo para beber. Apanhei 6 latinhas de cerveja, paguei no caixa e sai.

Pål e Lauren iam vagarosamente rua abaixo. Na verdade eu não tinha nada contra Lauren, pensei. Mas agora mesmo ela era uma mosca na minha sopa. Onde quer que ele vá eu o seguirei.

Estava justamente com meus pés no limiar da estrada principal com a entrada de uma propriedade particular. Alguns metros além havia uma majestosa vila, com terraço na frente, cuja porta da entrada, em madeira maciça, abria-se para outro tipo de vida. Um tipo de vida que eu só tinha lido e sonhado sobre, mas que sabia que um dia dela eu faria parte.

No jardim havia um carrinho de bebê e um carro azul. Não era um antigo Opel Sonethe? O carro me desapontou um pouco. Esperava algo mais elegante de Pål. Um esportivo tração de quatro rodas ou um Jaguar de alguns anos atrás.

Meu estômago estava inquieto. Há um limite de licor de café que um homen na minha idade aguenta. O estômago se torceu e um ligeiro enjôo apareceu nos últimos minutos, ainda que eu tenha me enchido de cerveja para manter o equilÍbrio de lÍquidos em balanço. Lá estava eu por muito tempo, precisamente por 2 horas e 4 minutos, meio escondido atrás de um arbusto. Até consegui perder a bicicleta pelo caminho.

A forma estava longe de estar no topo. Era como se o corpo tentasse me deixar de joelhos. Mas haveria alguma razão para estar angustiado? Eu deveria dar um presente para um irmão de alma. Nada mais, nada menos.

A dedicatória no livro era simples e boa: Para Pål, de Hobo. Cumprimentos pela paternidade. Na realidade era uma tentativa para chegar a onde ele estava. Crianças não eram a minha especialidade, todavia pais recém feitos gostam de serem lembrados de seu status como provedores de famÍlia, sejam ricos e bem sucedidos artistas ou condutores de bonde. Agora só teria que apertar a campainha, me apresentar, entregar o presente. Pior do que isto não seria.

Despejei cerveja garganta a baixo e precipitei-me porta adentro.

Talvez estivesse um pouco cambaleante na escada. Talvez um pouco desgrenhado no cabelo, mas vestia o robe de chambre e uma camisa havaiana.

Ao passar pelo lixo deixei cair a garrafa vazia. Não havia dado mais do que uns passos quando senti uma pontada na consciência. Que tipo de audácia seria esta de jogar lixo pessoal em casa de pessoas estranhas sem pedir permissão? Eu retornei ao lixo, abri a tampa novamente.

O mau cheiro atingiu-me quando me abaixei. A garrafa tinha escorregado entre sacos de plástico cheios do Supermercado ICA . Um enjôo inoportuno me atingiu, peguei a garrafa e inspirei profundamente ar puro.

Agora descobri que havia algo vermelho na minha mão. Haveria lá um foster morto ou o cadáver de um velho amigo. Na verdade, o que se escondia sob "Sycamore Leaves"? pensei eu. Corpos suicÍdas, violentados e corpo de criança mutilado? Ou só projetadas e reprimidas fantasias? Pensei sobre esta escuridão construida no texto de Waaktaar. Supérfulo e profundo ao mesmo tempo. Balanco entre ascenção e ruÍna. Teria eu me enganado sobre o homen?

O retrato de meu irmão de alma gêmea havia ganho uma nova dimensão, mas eu descobri o que era: molho de espaguetti!

Eu quase chorei. Seriamos mais do que irmãos de alma? Será que gostávamos da mesma comida? O pensamento logo me deixou mais encorajado e eu lambi com desejo o molho na minha mão. Dolmio? Quase certo, logo depois de uma pequena remechida nos sacos de lixo, achei o frasco vazio e o coloquei no bolso da jaqueta antes de ir cambaleando para a porta de entrada.

No meio do pátio, diminui o passo. A vista de uma sombra em uma janela me fez irromper em direção ao jardim.

Melhor não atrapalhar, talvez o pequeno esteja dormindo lá fora, pensei. Resolvi dar uma olhada no jardim.

A pequena famÍlia sentava no chão da sala. Os pais ao redor do bebê, falavam com ele, logo deveriam trocar as fraldas novamente, ao que entendi pelos utensÍlios que estavam prontos: fralda limpa, guardanapos úmidos e um creme para assaduras nas nádegas.

Tinha uma boa visão de onde estava e espiei através da porta do terraço. Contudo me surpreendeu um pouco que havia somente um móvel naquela sala tão grande. Que será isto? Era este o ambiente para uma criança crescer? Ou seria assim que as estrelas viviam? Perguntei a mim mesmo. Sem móveis e com alto saldo na conta bancária? Talvez não fosse muito prático ter tanto para juntar pó quando eles saÍam para turnês, mas para tudo há um limite!

O bebê olhou abobado para seu famoso pai e regurgitou. Isto foi demais para mim, apertei a boca, pressionei a testa contra ao vidro da janela e quando ele retirou a fralda cheia de cocô do pequeno eu vomitei pelo terraço.

Quando acabei, me virei para a porta, vi que eles tinham sumido para dentro. O vômito continuava fumegante no terraço, enquanto eu cambaleava escada abaixo. A gaiola do passarinho ficou atrás de mim. Não se via ninguém através das cortinas da casa ou lá fora, mas as sirenes de um carro policial uivavam cada vez mais próximo.

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