Pål H. Christiansen

Sonhos de grandeza

(Drømmer om storhet, pp. 18-20, tradução: Carmen Trevisan)

Uma onda de calor atingiu-me quando saÍ do jornal e me dirigi para a rua Karl Johan. A tarefa do dia tinha sido feita e eu podia, com a consciência tranquila, entregar-me aos meus próprios rabiscos. Meus antigos esforços literários tinham sido a primeira fase de uma nascente atividade literária. O romance "A Carta" de 1984, tratava-se precisamente sobre uma pessoa que teve que sumir para conseguir seu próprio espaço. Neste espaço as grandes coisas poderiam acontecer. Na coletânea de prosa "Harry não estava no seu juÍzo perfeito", de 1989, pela primeira vez, explorei a possibilidade das prosas curtas e na coleção de poesias "Bærtur", de 1990 foi usada a forma de soneto.

Tenho estado num perÍodo tranquilo. Para dizer a verdade, não publiquei nenhum livro nos últimos 10 anos. Tenho escrito, escrito, mas não tem levado a nada. Uma mudanca no espÍrito, me afastou da aconchegante cadeira de reuniões da sala do chefe de redação. Já na saÍda, com a boina na mão, como que esperando por uma nova chance, novas forcas me colocaram à frente da fila. Mais tarde, sem ter iniciado nada, perambulava num universo literário que durava uma eternidade.

Estaria eu amargo? Estaria desanimado sobre a falta de cultura desta terra? Sim, o que sabe um norueguês comum sobre o preço do cansaco e da privação que se paga por levar um sonho à sério? O que eles sabem sobre o caminho para o sucesso? O a-ha sabia. Eles tinham sentido isto no corpo, passaram fome como numa edição moderna de Hamsun em Londres. Como ratos entre o lixo e sujeira. Viveram na esperança, na convicção de que eles tinham algo que era muito grande para a pequena Noruega. Algo que explodia no peito, que queria voar mais longe, acima da presunção social da democracia norueguesa. Os problemas se sobrepunham sim, mas eles os resolviam. Alguns diriam que eles tiveram sorte. Para estes, só quero dizer que isto não teve nada a ver com a sorte. Isto teve a ver com o talento, com o que Harket, Furuholmen e Waaktaar tinham dentro de suas cabeças.

Entrei na Rua Karl Johan e continuei em direção ao Castelo. As pessoas curtiam o bom tempo com cerveja e óculos de sol sentados em mesas do lado de fora dos restaurantes. Junto à Livraria Tanus parei e espiei na vitrine. Lá os novos romances criminais espalhavam-se ao lado de livros de receita de famosos cozinheiros e de outros com assegurado conhecimento de arte culinária. Literatura séria de ficção nada havia, pelo contrário, o dicionário de norueguês foi colocado num cantinho, por ocasião do inÍcio do ano escolar. Continuei adiante sacudindo a cabeça.

Eu nunca tive dúvida de que havia algo comigo maior do que todos esses outros medÍocres que tentam escrever livros e realmente conseguem editá-los, mesmo que não tenham algo sobre o que escrever, porque aqui nesta terra se espera que um escritor produza um ou dois livros por ano. Assim mesmo os livros são editados e são comprados, transformados em manteiga para a comida, deste clã de fúteis pseudo-artistas.

Mas agora, para ser justo, não me farei maior do que no momento era! Eu tinha certeza de que até agora eu tinha tido um aprendizado em comparação do que deveria vir. Mas a semente de uma grande coisa lá estava! O prêmio literário Nordisk Råd estava absolutamente dentro da sequência, por assim dizer. A necessidade de escrever crescia dentro de mim enquanto caminhava. Eu era como um pão a fermentar, a transbordar da forma, a sair do forno e a conquistar o mundo.

O que Rainer Maria Rilke teria dito? Que ser escritor queria dizer que a gente não conta e nem calcula, mas fica pacientemente parado nas tempestades de inverno sem a angústia de que o verão não chegue? Que o verão só chega para os dotados de paciência, para os que sempre vivem como se a própria eternidade estivesse a sua frente: sem dor, silenciosa e infinita.

Devo dizer que a impaciência me ameaçava de vez em quando. E também já era outono, que era a minha estação do ano.

Cruzei a Rua Universitet, segui até a Rua Karl Johan e aproximei-me de Ibsen e Bjørnsom que lá estavam em seus pedestais na frente do Teatro Nacional. Talvez fosse tentador rir um pouco para mim mesmo destes dois, mas não seriam eles pessoas reconhecidamente com mais ar embaixo das asas do que 99% daqueles que se chaman escritores nos dias de hoje? Pensei, parei e estudei as expressões deles: Bjørnson aparentava pomposidade e Ibsen, seriedade. Dois gigantes, cada um no seu reino, cada um deixando suas marcas neste paÍs, pensei eu.

Mas e o Wergeland, então? O que foi feito dele?

Olhei ao redor e o descobri solitário e sozinho do outro lado da rua. Ah, então foi lá que o colocaram!!! Certamente numa posição mais destacada em relacão ao Parlamento, por exemplo, porém sozinho.

Wergeland dava a impressão de satisfeito quando me aproximei para vê-lo de perto. Em relação aos outros dois caras, Wergeland era uma representação viva e suculenta, pensei.

Agora vejo o bonde subindo a Rua do Parlamento. Atravessei a rua e corri até o ponto da parada. O ônibus até Tårnåsen vinha em sentido contrário quando me aproximei da esquina.

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